2003-10-22

Comunicação do Presidente da República



21 de Outubro de 2003

Portugueses,
A administração da Justiça é uma função essencial do Estado, que tem de exercer-se num quadro de serenidade e de confiança.
Serenidade e confiança nas instituições judiciais e nos procedimentos que aplicam, serenidade e confiança nas pessoas investidas na função de fazer Justiça.
E isto é tanto mais necessário quanto mais graves forem as questões a julgar e quanto maior for a inquietação que elas possam gerar na comunidade.
É por isso que os apressados julgamentos de opinião pública são a pior maneira de procurar a Justiça; e é também por isso que se impõe encontrar um ponto de equilíbrio entre, por um lado, as legítimas exigências de informação e o escrutínio democrático da Justiça que ela ajuda a viabilizar, e, por outro, a garantia de um julgamento célere e equitativo, no local próprio - que são os tribunais e só eles.
Ao Presidente da República cabe zelar pelo regular funcionamento das instituições.
E por isso tem vindo a lembrar princípios essenciais que visam assegurar que o processo penal e a investigação criminal, que o serve, só estão de um lado - o da Justiça; e que estar do lado da Justiça exige que se protejam, com igual empenho, os direitos das vítimas e os direitos dos arguidos, para que à desgraça de não termos sabido cuidar das crianças que nos foram confiadas se não venha somar a desgraça de não termos feito Justiça, ou de termos ficado indesculpavelmente aquém, ou ao lado, na punição dos que delas criminosamente abusaram.
Desses princípios essenciais fazem parte a presunção de inocência; a lealdade processual; o uso ponderado e proporcional de poderes e de medidas, sobretudo quando, como a prisão preventiva, restringem direitos e liberdades fundamentais; a observância do segredo de Justiça, para a indispensável reserva das investigações e para a protecção do bom nome das pessoas.
No exercício das suas funções, o Presidente da República está na posição singular de ter direito a toda a informação necessária e legítima, e de nessa posição se relacionar com todos os órgãos do Estado e seus titulares.
Mas porque assim é, está fora de questão - e os Portugueses que me elegeram duas vezes bem o sabem - que o Presidente da República pudesse usar tal informação ou aproveitar tais relações para fins menos legítimos, designadamente - que fique bem claro- para obstruir ou influenciar a marcha da Justiça.
Posto isto, é tempo de ordenar prioridades e de não esgotar o empenho cívico dos portugueses em questões que, por mais decisivas que sejam - e são - para a moralidade colectiva, representam apenas uma parte do país que há para construir.
A ultrapassagem dos bloqueios do desenvolvimento e das crónicas deficiências estruturais constitui uma indeclinável prioridade do Governo. E essa ultrapassagem exige a mobilização de todos os Portugueses.
Defrontamo-nos, além disso, com um reordenamento estratégico e crucial da União Europeia, que irá influenciar a sua evolução, e projectar-se, assim, nas expectativas e interesses de Portugal, como Estado membro, e dos seus cidadãos.
A Justiça, em geral, e não apenas um processo, aguarda a reforma que agilize o sistema e o torne, finalmente, célere e equitativo.
Perante tudo isto - que é muito, e que é o essencial dos desafios que nos estão colocados - não faz qualquer sentido que as prioridades e preocupações dos portugueses continuem a ser, diariamente, secundarizadas, por uma qualquer novela judiciária, tantas vezes com criminosa e despudorada violação do segredo de Justiça, que não pode, naturalmente, ficar impune.
Novela judiciária que nos distrai de todas as outras preocupações e projectos, igualmente essenciais, e acaba por constituir, no alarido criado, entrave de monta a uma administração da Justiça que convença pela sua equidade, pelo seu equilíbrio e pela sua serenidade.
É isso que é próprio de uma nação que administra Justiça há muitos séculos, que se revê nas virtudes e nas capacidades que a trouxeram ao século XXI, e que não se deixa vencer pelo desânimo e apatia colectivas só porque no percurso da modernidade há males antigos a combater.
Por mais doloroso que seja este tempo, façamos dele um tempo de esperança.

no site da PR

2003-10-01

Projectos:


Ando a pensar em publicar umas postas acerca da reforma da Administração Pública, do papel do Estado na sociedade, da equidade e do mercado, e de um tema muito novecentista: o ESTADO PROVIDÊNCIA.

Mas vou de férias. Ciao
Recebi esta mensagem:
Saiu no passado Sábado, na revista Única do Expresso, um artigo de Luísa Schmidt a alertar para a degradação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Em resumo fala-se de áreas que se pretendem desanexar da reserva natural (para promoção, contrução imobiliária e turismo), da inexistência de políticas destinadas às populações residentes em zonas protegidas e da incuria do Estado.

Por tudo isto corre na Net uma petição ao ministro do Ambiente para recordar o Estado dos direitos dos cidadãos.


Seria bom que em vez de chorar sobre leite derramado (tal como na vaga de incêndios), a sociedade civil agisse a tempo e horas e fizesse valer a sua posição. Não queremos outro Algarve. Queremos?

Já assinei.

2003-09-29

SILÊNCIO



JPP continua a zurzir nas formas escolhidas pelos estudantes para protestar contra o aumento das propinas.

Não sei porquê, mas há alguma coisa que me diz ao ouvido, algum grilo transviado, que deve haver um traço esquisito num engenheiro de sistemas, num físico nuclear, num bioquímico, que não se importa de andar na rua, em público (que horror!), vestido de “estudante” oitocentista, na altura do varapau, das rixas, das esperas, dos bordéis canalhas, da contínua bebedeira, e, ainda pior horror, da poesia ultra-romântica.

Quanto ao conteúdo: um completo SILÊNCIO.

Contra factos…



Na sequência do meu comentário de 26-09 às recentes notícias sobre fraudes financeiras no Eurostat, Miguel esclareceu-me que:
Segundo os relatórios das entidades fiscalizadoras estas práticas podem ter-se continuado a verificar depois de 1999.

Agradeço a informação de possivelmente continuarem as más práticas. Aqui me penitencio e deixo o meu pedido de desculpas pela falta de rigor. Humildemente me curvo.

Mantenho que a publicação destes factos (ou da sua possibilidade) está ligada à actual conjuntura política italiana: Prodi será o opositor de Berlusconi para a próxima Presidência do Conselho em Itália. Ou será que ainda conseguem eliminá-lo à partida?

2003-09-26

Caro Kay,

O funcionamento ideal da democracia exige uma lista infindável de requisitos, entre os quais “estabilidade, riqueza e hábitos de liberdade (de discussão crítica, de debate livre)”. Concordo e aplaudo.

Mas, nesta perspectiva, democracia é aquele estranho e raro regime dos cidadãos livres ricos e desocupados de Atenas – sem escravos. Ou numa hipotética Inglaterra do século XIX – sem classe trabalhadora e sem sindicatos. Mas a política e a vida pública não são um jogo de diletantes ligeiramente entediados com esta súmula de reacções químicas que chamamos vida.

É a sério! Implica risco.

A Índia é uma democracia? E Moçambique? E o Brasil? E a Indonésia?

No caso do Iraque o terreno é ainda mais escorregadio. Pelo que pouco sei não existe nenhum movimento de matriz democrática, ou moderada e tolerante, na sociedade Iraquiana. Os ideais agregadores têm origem religiosa e étnica. Corre-se o risco de os populismos nacionalistas e/ou fundamentalistas considerem a democracia enquanto ganharem eleições. No dia em que saírem resultados os perdedores vão logo vilipendiar o processo. Vão dizer que as eleições foram manobradas, e que a democracia não se adapta à cultura iraquiana. Que foi uma falsificação imposta pelo opressor!

Por outro lado, pergunto-me se a potência administrante do território aceita correr o risco de ver os fundamentalistas chegarem ao poder por via democrática.

Cumprimentos,

Pepe

PS: Obrigado pelo iluminante comentário que me obrigou a aprofundar a minha opinião.