2004-03-16

Do futebol


Na ânsia de vencer, apela-se aos instintos mais básicos sem cuidar da verdade da proporcionalidade e da justiça. Interessa a agressividade, a vingança, a ameaça... Após a derrota todas as justificações são válidas, desde a bola que é redonda até à relva que é verde e o árbitro que é ladrão e a sorte foi madrasta e...

Um jogo de futebol concentra, em momentos, as emoções básicas , o instinto de agressão, o gozo da conquista. Ritualiza-os. Faz parte da natureza do futebol esse discurso irracional, populista e manipulador que tantas vezes ouvimos nos seus dirigentes; que prolonga e amplia a participação e a partilha das emoções do jogo. Num jogo a fuga à realidade é aceitável, porque o próprio jogo é um escape ao quotidiano medíocre que a maioria de nós carrega.

Transpor esta gramática para a vida pública é demasiado perigoso.
Transformar uma sondagem em resultados da jornada do fim-de-semana, que se comentam à segunda, é redutor.
Fazer das eleições uma final da Liga dos Campeões é demagógico.
Comentar as decisões populares como se fosse o penalti mal marcado é manipulador.

A democracia merece mais...

2004-03-13

Tal como o governo espanhol, prefiro que a autoria dos atentados de Madrid seja da ETA. A alternativa é demasiado assustadora.

Pensando unicamente nos interesses imediatos do país onde nasci, da cidade onde vivo, da segurança dos meus vizinhos, da família e amigos, da minha integridade pessoal, prefiro de longe a ETA.

O impacto psicológico, político e social de um atentado fundamentalista islâmico na capital de um dos dois aliados ibéricos da guerra ao terrorismo de Bush é preocupante para a segurança e paz do nosso quintal. A própria europa no seu todo sentirá as ondas de impacto das explosões de 11 de Março, na hipótese islâmica. Pense-se no peso das comunidades imigrantes muçulmanos na Europa e uma vaga de xenofobia e de anti-islamismo é muito provável.

Se me fosse possível escolher, prefereria fechar os olhos com força, tapar aos ouvidos com as mãos e repetir até a exaustão a ladainha:
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"


Os neo-conservadores e a sua visão hiper-simplificadora da realidade. Pretendem alterar o panorama através do discurso delimitador de fronteiras rígidas entre nós e os outros, o claro e o escuro, entre o bem absoluto e o mal absoluto. Este discurso securitário, claro e apelativo, de tanto ser repetido, toldou o olhar e apressou a conclusão de quem o profere. Ideologizou a defesa do interesse do povo espanhol. Estruturada em torno da guerra ao terrorismo a visão neo-conservadora do mundo deturpou-se. Perdida a capacidade de leitura do mundo, tornou-se como um corpo rígido sob a acção de forças contrárias, imóvel até cair ou quebrar. O governo espanhol foi, pela segunda vez, incapaz de reagir à surpresa, ao acontecimento que foge do paradigma e ao cenário antecipado.

A imputação da culpa à ETA, com base em pressupostos, perspectivas e desejos, sem provas factuais, é de uma fraca compreensão do Estado de Direito, porque julga com base em intenções e presuspostos. É uma irresponsabilidade política porque fractura, para gerações, a sociedade espanhola.

Fazê-lo com base em cálculos eleitorais é indesculpável.

2004-03-11

Arnaldo Ortegi, dirigente do Batasuna não admite que a ETA tenha colocado as bombas nos comboios em Madrid. As suas afirmações são o sussurro face ao clamor generalizado das certezas, não só da classe política, como de toda a população espanhola.

A primeira reacção à notícia das explosões é imputar a responsabilidade à ETA, a bête noire do Governo espanhol. Mas as informações que vêem surgindo após o embate levantam questões que a fragilizam. Peritos da EUROPOL confirmam as dúvidas de Ortegi, realçando que o modo de actuação não corresponde ao habitualmente utilizado pela ETA. Por outro lado, a utilização de dinamite mantém as suspeitas sobre a organização terrorista basca.
São mais as dúvidas que as certezas.

O Governo espanhol, a três dias das eleições foca ainda mais a actualidade no tema central desta campanha eleitoral: a ETA. Para Rajoy e o restante Governo a ETA foi responsável pelo atentado terrorista, não havendo qualquer outra alternativa possível. Terá a sua visão da realidade sido contaminada por algum voluntarismo político ou terá o Governo espanhol informações mais precisas que o Batasuna?

Devem ser chorados os mortos, socorridos os feridos. Deve dar-se caça aos assassinos. Devem ser julgados e castigados. Mas não se deve alimentar o espírito de vingança. Outro perigo recai sobre as democracias: esta terrível tentação securitária.

LUTO E TRISTEZA

2004-03-10

Na proposta do Governo do novo enquadramento da negociação salarial há um ponto que me preocupa: os ganhos de produtividade não se repercutirem, na sua totalidade, no crescimento salarial.

Para manter a peso do trabalho no rendimento nacional é importante que o crescimento dos salários iguale a inflação mais o crescimento da média do produto nacional por trabalhador, mais conhecida por produtividade média do trabalho. Se o crescimento do contributo de cada trabalhador para o produto for maior do que a evolução do salário (descontada a inflação) a porção que sobra para a remuneração capitalista e para o Estado é maior, logo o peso do trabalho na economia desce.

Como o rendimento das classes baixa e média baixa é maioritariamente salários a diminuição do peso do trabalho na economia é um preocupante indicador de maior da desigualdade.

Ora a proposta do Governo propõe que o crescimento salarial não repercuta a totalidade dos ganhos de produtividade. O Governo propôs um aumento do leque entre os mais ricos e os mais pobres.

menos um vírgula três por cento

2004-03-08

exames


Considero a avaliação um instrumento importante do processo de aprendizagem e fundamental para a sua melhoria constante. A avaliação individual do aluno servirá também para identificar as fragilidades e corrigi-las.

Preocupa-me a falta de definição das competências-chave de cada ciclo de aprendizagem. Sem ela será difícil identificar o que avaliar e segundo que processos. Estaremos a examinar por examinar, a distinguir por distinguir. Não sabemos se o que marcamos como bom é realmente o que pretendemos.

Acredito que há lugar a momentos formais de avaliação individual escrita, normalizada e igual para todos - os exames. A avaliação contínua, relacional e presencial tem claras vantagens na identificação das capacidades que escapam ao exame escrito. A sua natureza exige a subjectividade do avaliador logo peca pelas diferenças entre diferentes avaliadores, difíceis de controlar. Por razões de igualdade e objectividade o exame é justificável.

As escolas tem a liberdade de adaptar as matérias à comunidade envolvente, havendo a possibilidade de uma multiplicidade de precursos. Esta possibilidade contém o risco de se perder a coerência do sistema e a identificação das competências adquiridas. Acredito que os benefícios desta flexibilização são maiores que os custos, mas momentos chave de normalização e igualização das competências é fundamental. Não quero viver num país em que temas fundamentais para a compreensão do mundo com a geometria e o cálculo, o língua portuguesa, a teoria da evolução, a sexualidade , a ciência ou a literatura sejam competências optativas dependentes do contexto social, religioso e económico em que a escola está inserida. Para isso o exame nacional normalizado é um instrumento muito eficaz.

Acredito que a responsabilização dos cidadãos cria-se com a responsabilização das crianças de forma adequada à idade e ao grau de desenvolvimento. Para o que a avaliação contribui. Acredito que a avaliação deve ser clara e fácil de entender pelos seus destinatários - as crianças e os pais.

Por isso concordo com exames nacionais normalizados ao longo de todo o percurso educativo, e mesmo durante o ensino obrigatório. Deverão ser enquadrados num processo de avaliação completo, que inclua as outras vertentes presenciais, relacionais e subjectivas. Nunca aceitarei o exame como o única forma de avaliar pessoas, alunos ou não.

Devem ser avaliadas, muito cuidadosamente, as consequências do exame para cada aluno. O que acontece aos insucessos, aos alunos com resultados mais baixos, é a principal discussão. Implementar sistema que prejudicasse a inclusão de todos, principalmente dos mais desfavorecidos, seria uma viagem no tempo - 30 anos para o passado.

2004-03-03

3 atentados



Ao atentar-se contra três mesquitas de grande importância para os xiitas, matando dezenas de pessoas, durante a celebração do massacre por sunitas do Imã Hussein, fundador do ramo xiita dos Islão, pretende-se enraivecer a comunidade maioritaria do Iraque. O povo xiita, com uma cultura de glorificação do martírio individual e colectivo é especialmente sensível a esta provocação, claramente premeditada.

A posição da administração norte-americana é, de dia para dia, cada vez mais difícil. A fragilidade do processo de devolução do poder aos iraquianos é consequência directa da falta de planeamento do pós-guerra, o que deu o ensejo e a oportunidade aos terroristas e assassinos de provocarem o medo e a instabilidade no Médio Oriente.

A esperança está na sensatez e colaboração dos líderes xiitas, o que custará caro ao Sr. Bremer, cada vez mais perdido no novelo político criado pelos interesses contraditórios dos três povos do Iraque.

É cada vez mais necessário a divisão em três do Iraque e cada vez mais improvável esta possibilidade.

(ver Diário de Notícias)

2004-03-02

admirável mundo novo



...há quinze anos li-o e ficou-me na memória, não a trama, linear e pouco imaginativa (pouco se pode esperar do Sr. Huxley), nem as personagens... Lembro-me da institucionalização generalizada dos jovens até à idade adulta: criados, educados, orientados e dirigidos em hiper-internatos do Estado... no admirável mundo novo, ao invés do ambiente de controlo castrante do 1984 de Orwell, encontramos a alienação do indivíduo pelo prazer... a massificação dos desejos...
Uma família feliz
Referência ao grotesco (desenquadrado-da-realidade-como-que-a-piscar-o-olho-ao-ridículo-ou-ainda-um-hino-aos-tocadores-de-trombone-profissionais)

Célia tem mãe mas não tem pai. O pai de Célia não existe, mas mora a 12 quilómetros. A mãe de Célia não tem marido mas mora com um homem a quem Célia chama pai. O pai que existe não gosta de Célia. Célia não tem irmão, mas o pai de Célia tem um filho a quem Célia chama pelo primeiro nome. A mãe de Célia não tem filho mas tem filho. O pai que não existe não conhece o pai que existe, por respeito à lei da anti-matéria. A esposa do pai que não existe não é casada e não tem filhos. Não conhece Célia. Mas Célia conhece a esposa que não existe do pai que não existe. Célia chora apenas em frente do irmão que não é irmão. A mãe de Célia chora em segredo, canalizando telepaticamente as suas lamúrias ao marido que não o é e que não existe como pai da sua filha. O marido que tem é intermitente e olha Célia apenas do pescoço para baixo. A mãe de Célia sabe coisas mas não conta.


no Castor de Mármore

2004-03-01

do estado laico



A Turquia é único país maioritariamente muçulmano que se candidatou a uma adesão à União Europeia. Em nome da laicidade do Estado proibiu o uso do hijab pelas mulheres, tal como agora em França.

Enquanto na Turquia esta medida promove a tolerância e a libertação feminina, o Estado francês oprime uma minoria em nome dos receios da maioria.

Girl With a Pearl Earring




Guido Reni
Ritratto di Beatrice Cenci




Ao contrário de Beatrice, Griet não oferece aos olhos do mundo a beleza dos cabelos, sempre escondidos pela touca. Por uma só vez, graças a uma indiscrição de Johannes, descobrimos a sua cor. Depois vestiu-os de turbante azul.

2004-02-26

O Felipe na respublica deu sequência à minha posta acerca da adopção de crianças por casais homossexuais:

Admito que dois homossexuais podem mesmo ser os melhores pais do mundo. Podem até ser os progenitores mais compreensivos, carinhosos e preocupados; mas não é isso que está em causa. Também não me interessa saber se a homossexualidade se “transmite” às crianças educadas por gays ou lésbicas. Em meu entender, não é isso que está em causa.

O Estado é responsável pelas crianças que tem à sua guarda; e a todas deve proporcionar a oportunidade de ter um pai e uma mãe (e não dois pais ou duas mães), que lhe proporcionem uma família saudável.



Não tenho dúvidas em preferir um casal adoptante heterossexual a um casal adoptante homossexual, todas as outras condições iguais. Também não tenho dúvidas em preferir crianças criadas por adultos saudáveis e responsáveis, com vontade desejo e condições para o fazer, a mantê-las em instituições que, por muito esforço e dedicação dos profissionais que haja, não permitem a mesma personalização, o mesmo amor e a mesma atenção.

Quanto ao resto todo eu sou dúvidas. Como, penso, todos os adultos que, de um modo ou de outro, se preocupam com os direitos e o futuro das crianças, na família ou em instituições.

2004-02-24

Aborto - a lei


Os movimentos pró-vida recusam o aborto por não ser ético nem sequer necessário. Vêem o acto de abortar não só como eticamente criticável, mas também sem qualquer justificação prática. Centram assim a responsabilidade nas pessoas que contribuem directamente para o acto - a grávida e a abortadeira. Se os actuais métodos de planeamento familiar tornaram obsoleto o aborto, não só é condenável fazê-lo como é fácil evitá-lo. Esta é uma afirmação surpreendente vinda de quem vem, pois assume implicitamente que o aborto, apesar de obsoleto, é, ou foi, um método contraceptivo.

Em países sem Planeamento Familiar generalizado e acessível, o aborto é uma necessidade, logo, mesmo que condenável, será justificável por razões práticas. Como há margens de insucesso, em todos os contraceptivos, o aborto é necessário sempre que os restantes métodos falhem. Penso que não será esta a tese do movimento pró-vida.

Por outro lado o movimento a favor da liberalização do aborto exacerba o controlo feminino sobre o seu corpo, acima de quaisquer outros valores. Noutras situações as mesmas pessoas considerariam inalienáveis os valores que sacrificam à liberdade de decisão feminina.

O direito à vida é um dos pressupostos fundadores da ética ocidental, em particular, na sua vertente democrática e liberal e um forte argumento a favor da penalização do aborto. Está em causa a vida de um ser humano. Mais, está em causa a vida de uma criança que, se considera uma obrigação pública, defender. Pública no sentido de ser uma obrigação de todos, podendo ser esta exercida pelo Estado ou noutra forma institucional qualquer.

As fragilidades da perspectiva penalista surgem quando deixamos o mundo dos grandes princípios e começamos a pensar na sua aplicação. A Lei tem sempre uma faceta coerciva. Um comportamento voluntariamente seguido por todos, não entra no campo do Direito, mas sim da Sociologia, da Cultura e da Psicologia. Para a negação do aborto ter força de Lei, precisa dum instrumento coercivo que a faça cumprir, com eficácia. O aborto para ser proibido tem de ser necessariamente penalizado.

A situação actual é uma autêntica roleta russa. De quando em vez, não muito frequentemente, sai o prémio a umas quantas desgraçadas, grávidas, sem meios para passar uns dias em Badajoz, Tui ou Zamora.

Pergunto-me se estes raides totalmente aleatórios terão, pelo menos, algum efeito dissuasor nas mulheres que equacionem um eventual aborto. Pergunto-me quantos abortos se evitaram com a presente lei e a sua aplicação.

Ver a ética como a adesão total a um conjunto de regras de conduta, torna o problema do aborto, uma questão infindável, sem perspectiva de uma solução generalizadamente aceite. Dizer que sim pela liberdade do uso do corpo, um direito indiscutível, penso; ou dizer que não pelo direito à vida; é não contribuir para a solução é sim aprofundar e fazer persistir o problema.

2004-02-20

BACK TO THE FUTURE



Depois de conhecer o vanguardismo do processo de escolha de dirigentes da função pública, hoje percebi os critérios de selecção.

E como sempre foi a Sra. Ministra da Justiça a primeira na senda da modernização da administração pública.

2004-02-19

Uma posta do Filipe lembrou-me um dos maiores desafios da actualidade – a confrontação entre valores e direitos contraditórios:

O que está em causa não é o direito dos gays e lésbicas a adoptarem crianças, mas sim o direito das crianças a terem uma família normal.

O conceito de família fragmentou-se nos últimos 30 anos. Desconheço qual o padrão de família que o Filipe evoca como “família normal”. Não será, julgo, a família de pai trabalhador, mãe dona de casa e quatro ou cinco filhos em redor. A realidade portuguesa pouco tem a ver com os filmes Disney dos anos 50, com a Casa da Pradaria e, muito menos, com o Bonanza. A grande maioria das famílias actuais, em idade reprodutiva, vive num T2 nos subúrbios, máximo um filho, porque dois já é uma loucura. Os pais podem ter-se divorciado e a criança viver com a mãe, o padrasto e talvez um meio-irmão. Ou os pais juntaram os trapinhos, não pensam sequer em casar.

Ter filhos, por razões de biologia, liga-se muito estreitamente à sexualidade. Por razões de sobrevivência à economia. Por motivos de socialização à família. E cada uma destas dimensões da vida das pessoas liga-se com as outras todas. E todas elas mudaram, são diferentes. Diferentes do que foram e diferentes de pessoa para pessoa.

Não contesto que as crianças tenham direito a uma família normal. Só não sei o que é uma família normal. Será uma família média, essa monstruosidade estatística? Será a família mais frequente? Será um conjunto de meia dúzia de formatos aceitáveis entre os outros todos perigosamente minoritários?

O critério de normalidade da família para decisão de adopção é, no mínimo, intratável, questionável e tendencialmente injusto. Pior! A decisão de aceitar um adoptante é sempre um risco que se corre, mas substituir esse risco por falsas seguranças não é solução.

Que tal em vez de pensar em termos de normalidade da família, lembrar-mo-nos verdadeiramente dos interesses da criança, que é melhorar a sua vida, ter oportunidades, ser feliz. A criança terá direito a uma vida saudável.

E temos outras crianças cuja família é família nenhuma. E todas têm o direito de ter uma família saudável.

2004-02-17

Tem-se associado a estagnação do emprego, mesmo em períodos de crescimento económico, o aumento do peso do desemprego de longo prazo, a redução da percentagem da população activa nos grupos etários intermédios ao mercado de trabalho na Europa.

Argumenta-se que a menor flexibilidade do mercado de trabalho é consequência da adopção de medidas de regulação e protecção social, comum nos países europeus. Falo do salário mínimo, do subsídio de desemprego, da protecção na doença obrigatória e universal, do apoio à maternidade e à paternidade, dos sindicatos, da limitação do despedimento… Falo dos pilares do Estado Providência.

Argumenta-se que impor tais custos ao empregador, dificultando ajustamentos da mão-de-obra ao ciclo económico, reduz a procura de trabalhadores. Por isso é sobrevalorizado o investimento em tecnologias substituidoras de trabalho. A solução, defende-se, passa por, facilitar o despedimento e reduzindo os ónus sociais sobre o empregador e tronar assim maior e mais ágil a procura de trabalho.

Em contraponto às dificuldades europeias é valorizada a experiência norte-americana. Com maior flexibilidade do mercado de trabalho, tem demonstrado níveis de desemprego mais baixos, períodos de busca de novo emprego mais curtos e uma maior participação no mercado de trabalho. Os resultados globais têm apontado para quebras do emprego mais pequenas, com recuperações mais rápidas e taxas de desemprego menores que na Europa.

A última publicação de estatísticas do emprego e salários nos EUA apresentam-se como nuvens de dúvida na clareza do panorama desenhado. Os números parecem europeus demais para a propalada flexibilidade norte-americana.

Só é considerado desempregado o cidadão em condições para trabalhar que procure activamente vaga adequada às suas competências profissionais. Para manter a percentagem de população activa - os empregados mais os que procuram activamente emprego – sem alterar a taxa de desemprego, deveria o nº de vagas criadas crescer ao mesmo ritmo dos 2% na população.

O nº de vagas disponíveis não tem sido suficiente para absorver o crescimento populacional verificado. A taxa de desemprego desceu para 5,6% não à custa de mais empregos, mas sim do aumento de cidadãos que deixaram sequer de procurar emprego.

Mais preocupante é o aumento sustentado da percentagem de desempregados de longa duração. A percentagem de desempregados que permanece nessa situação há mais de 15 meses é o máximo histórico dos últimos 30 anos: 40%. Este facto aparesenta uma assustadora coerência com crescente nº de americanos que se auto-excluem do mercado de trabalho ao desistirem de o procurar.

Faz-me pensar os EUA terem problemas semelhante aos europeus, mas com mecanismos de mercado mais flexíveis. Faz-me perguntar se os efeitos da liberalização do mercado de trabalho, em curso na Europa, serão mesmo os esperados.

Faz-me lembrar o quanto a realidade o mercado de trabalho se afasta do corpo axiomático das teses liberais.

fonte: Paul Krugman no NYtimes

2004-02-15

Curiosamente qualquer mail agradável recebido de um estranho é fonte de inúmeras perguntas, receios, medos...
O hate-mail é o rito de passagem para a idade adulta na blogosfera.

Receber o primeiro é como uma aura de inabalável defensor da clareza e da verdade que desce sobre nós. É a comprovação de que resistimos corjosamente à tentação gregária, à resignação, à ideia preconcebida.

Um hate-mail é o que distingue um pensador visionário de mais um Adrian Mole com o seu diário.

A quintenssência do hate-mail, o Santo Graal dos jogos florais, é ser publicado e largamente citado no blogue do vizinho. E sermos desancados publicamente pela nossa visão. E responder!!!

Prolonga a polémica, radicalizando-a passo a passo, numa corrida ao armamento. Por isso os torneios florais de réplicas e tréplicas e tetréplicas e pentéplicas e ....

2004-02-13

Pronto!

Acabaram as primárias do Partido Democrata, e começou a campanha. Isto promete.