2004-03-19

teleporting



Quantos de nós, bons cidadãos, democratas, católicos, poderemos assegurar que, nas mesmas circunstâncias (o tempo, o lugar, a educação, etc.), não seríamos apoiantes de Hitler na Alemanha dos anos 30? Ou admiradores de Bin-Laden no Afeganistão ou no Paquistão de 2004?
CC na Quinta Coluna

Somos, talvez, pouco mais que o tempo, o lugar e a educação.

A cidadania, a democracia, os direitos humanos, as liberdades não existem num qualquer Jardim das Delícias (até porque aí seriam dispensáveis), não têm origem num etéreo estado natural do ser humano, não resultam de uma inata tendência para o bem. Existem num lugar, num tempo, numa cultura. Resultam de uma História - a nossa.

Quantos de nós seríamos bons cidadãos ou democratas na Alemanha do anos 30 ou no Afeganistão e Paquistão de 2004?

2004-03-18

martírio



cristo levando a cruz, El Greco

Mel Gibson reforçou a intolerável dor suportada pela carne de Cristo.
El Greco a beatitude da certeza da Salvação.

Eu não sei qual delas me assusta mais.

2004-03-17

No Mar Salgado tecem-se inteligentes considerações sobre as opções de integrar, ou não, as forças ocupantes do Iraque.

Imputar culpas aos governantes com base apenas nas possíveis consequências das suas decisões, sem lhes discutir o mérito mas apenas pelo medo de represálias terroristas, parece-me uma imensa cobardia.

No entanto e embora se trate de uma promessa eleitoral, Zapatero terá que pesar muito bem as consequências de uma retirada espanhola do Iraque, no rescaldo do atentado.

Concordei, e concordo, com a intervenção portuguesa no pós-guerra, com base num cálculo de minimização de custos. Abandonar o povo iraquiano a braços com a reconstrução é uma irresponsável decisão, instabilizando ainda mais médio oriente. Com isto não digo que concordei com a 2ª Guerra do Golfo, mas depois do mal feito...

Zapatero como novo líder de um país cada vez mais central na família europeia, por via da continuidade da projecção iniciada por González e continuada por Aznar, tem a obrigação e a responsabilidade de mostrar ao mundo que as opções de política externa espanhola mudaram. Zapatero disse que a Espanha, sob a sua liderança, não fará mais parte do "trio dos açores", mantendo-se no Iraque só, e só, na égide da ONU. Não será coincidência a França desejar uma intervenção internacional no Iraque, com o aval do Conselho de Segurança, o que irá propor. Afigura-se uma reaproximação da Espanha ao centro da UE, o que nos garante a redução da instabilidade interna da União.

Entre a participação e a cobardia, existem outras opções, realistas e realizáveis, que não omitem as responsabilidades ocidentais no Médio Oriente. Entre a manutenção e a retirada há o reforço da tese europeia de não hostilização do povo muçulmano.

Porqué é tempo de dar fim a este absurdo, e perigoso, "Choque de Civilizações". É tempo de não mais alimentar, de argumentos e apoiantes, as forças radicais do mundo muçulmano. É tempo de isolar politicamente os falcões e dar forças às pombas...

2004-03-16

Do futebol


Na ânsia de vencer, apela-se aos instintos mais básicos sem cuidar da verdade da proporcionalidade e da justiça. Interessa a agressividade, a vingança, a ameaça... Após a derrota todas as justificações são válidas, desde a bola que é redonda até à relva que é verde e o árbitro que é ladrão e a sorte foi madrasta e...

Um jogo de futebol concentra, em momentos, as emoções básicas , o instinto de agressão, o gozo da conquista. Ritualiza-os. Faz parte da natureza do futebol esse discurso irracional, populista e manipulador que tantas vezes ouvimos nos seus dirigentes; que prolonga e amplia a participação e a partilha das emoções do jogo. Num jogo a fuga à realidade é aceitável, porque o próprio jogo é um escape ao quotidiano medíocre que a maioria de nós carrega.

Transpor esta gramática para a vida pública é demasiado perigoso.
Transformar uma sondagem em resultados da jornada do fim-de-semana, que se comentam à segunda, é redutor.
Fazer das eleições uma final da Liga dos Campeões é demagógico.
Comentar as decisões populares como se fosse o penalti mal marcado é manipulador.

A democracia merece mais...

2004-03-13

Tal como o governo espanhol, prefiro que a autoria dos atentados de Madrid seja da ETA. A alternativa é demasiado assustadora.

Pensando unicamente nos interesses imediatos do país onde nasci, da cidade onde vivo, da segurança dos meus vizinhos, da família e amigos, da minha integridade pessoal, prefiro de longe a ETA.

O impacto psicológico, político e social de um atentado fundamentalista islâmico na capital de um dos dois aliados ibéricos da guerra ao terrorismo de Bush é preocupante para a segurança e paz do nosso quintal. A própria europa no seu todo sentirá as ondas de impacto das explosões de 11 de Março, na hipótese islâmica. Pense-se no peso das comunidades imigrantes muçulmanos na Europa e uma vaga de xenofobia e de anti-islamismo é muito provável.

Se me fosse possível escolher, prefereria fechar os olhos com força, tapar aos ouvidos com as mãos e repetir até a exaustão a ladainha:
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"
"A culpa é da ETA"


Os neo-conservadores e a sua visão hiper-simplificadora da realidade. Pretendem alterar o panorama através do discurso delimitador de fronteiras rígidas entre nós e os outros, o claro e o escuro, entre o bem absoluto e o mal absoluto. Este discurso securitário, claro e apelativo, de tanto ser repetido, toldou o olhar e apressou a conclusão de quem o profere. Ideologizou a defesa do interesse do povo espanhol. Estruturada em torno da guerra ao terrorismo a visão neo-conservadora do mundo deturpou-se. Perdida a capacidade de leitura do mundo, tornou-se como um corpo rígido sob a acção de forças contrárias, imóvel até cair ou quebrar. O governo espanhol foi, pela segunda vez, incapaz de reagir à surpresa, ao acontecimento que foge do paradigma e ao cenário antecipado.

A imputação da culpa à ETA, com base em pressupostos, perspectivas e desejos, sem provas factuais, é de uma fraca compreensão do Estado de Direito, porque julga com base em intenções e presuspostos. É uma irresponsabilidade política porque fractura, para gerações, a sociedade espanhola.

Fazê-lo com base em cálculos eleitorais é indesculpável.

2004-03-11

Arnaldo Ortegi, dirigente do Batasuna não admite que a ETA tenha colocado as bombas nos comboios em Madrid. As suas afirmações são o sussurro face ao clamor generalizado das certezas, não só da classe política, como de toda a população espanhola.

A primeira reacção à notícia das explosões é imputar a responsabilidade à ETA, a bête noire do Governo espanhol. Mas as informações que vêem surgindo após o embate levantam questões que a fragilizam. Peritos da EUROPOL confirmam as dúvidas de Ortegi, realçando que o modo de actuação não corresponde ao habitualmente utilizado pela ETA. Por outro lado, a utilização de dinamite mantém as suspeitas sobre a organização terrorista basca.
São mais as dúvidas que as certezas.

O Governo espanhol, a três dias das eleições foca ainda mais a actualidade no tema central desta campanha eleitoral: a ETA. Para Rajoy e o restante Governo a ETA foi responsável pelo atentado terrorista, não havendo qualquer outra alternativa possível. Terá a sua visão da realidade sido contaminada por algum voluntarismo político ou terá o Governo espanhol informações mais precisas que o Batasuna?

Devem ser chorados os mortos, socorridos os feridos. Deve dar-se caça aos assassinos. Devem ser julgados e castigados. Mas não se deve alimentar o espírito de vingança. Outro perigo recai sobre as democracias: esta terrível tentação securitária.