2004-08-17

Perspectivam-se tempos difíceis para a economia mundial por via da subida do preço do petróleo. É, em grande parte, resultado da instabilidade da ocupação do Iraque, da situação política na Venezuela e da fragilidade dos regimes autoritários e ditatoriais da Península Arábica.

Mesmo num cenário de estabilidade política e militar no médio oriente, o preço do petróleo teria, em probabilidade, subido. O consumo de energia per capita na China e na Índia cresce e crescerá, sustentadamente, a um ritmo que provocará aumento de preço por via da maior procura. Há uma pressão de fundo para a subida de preço do petróleo inultrapassável, por via de crescimento da procura.
A diferença está no ritmo de subida do preço. Os efeitos da maior procura constituem uma tendência de gradual aumento, o que permitiria a adopção de medidas de adaptação nas economias desenvolvidas, por via de alteração do modelo tecnológico. O mesmo se verificou em resposta aos choques petrolíferos dos anos 70 e 80 do século passado.

Esta crise de estabilidade de oferta teve efeitos súbitos no preço que impedem as necessárias adaptações tecnológicas, em tempo útil, nos países importadores. Os resultados de uma política direccionada para fontes de energia renovável e uma menor dependência das flutuações do preço do petróleo demoram a chegar, enquanto os preços estratosféricos da energia já aí estão. Resta aos países importadores sofrerem os efeitos na inflação, crescimento económico e desemprego da energia cara, enquanto as políticas energéticas responsáveis não produzem resultados.

Ultrapassada a conjuntura política internacional, o preço do petróleo baixará para valores aceitáveis. Apesar de mais altos do que os do início da crise, os preços serão tais que o investimento em energias renováveis deixará, mais uma vez, de estar na ordem do dia.

Esqueceremos que os efeitos graduais do aumento do consumo de petróleo na Ásia manter-se-ão e os países mais dependentes, como Portugal, verão os seus termos de troca numa contínua degradação.

no Público

2004-08-12

Cândido e os sacanas


Uma história inacabada, sussurada e deturpada, que deixa um indisfarçável odor a putrefacção.

2004-08-11

Por contraditório que eu esteja agora a parecer, a liberalização dos mercados agrícolas é das poucas boas notícias, nas últimas três décadas, para África. Globalmente o continente tem perdido qualidade de vida e a pobreza generalizada é regra.

A causa do empobrecimento real dos africanos não são as barreiras ao comércio, as tarifas às exportações e os subsídios aos agricultores, mas sim a guerra, a corrupção, o esquecimento, a má governação. Não há comércio que resolva estes problemas.

As relações internacionais têm historicamente duas vias: o comércio e a guerra. Por estes motivos a grandes alianças mundiais são militares. As principais instituições internacionais foram criadas para fazer a guerra (NATO, Pacto de Varsóvia) e expandir o comércio (OCDE, UE, EFTA, OMC, Banco Mundial, FMI, Mercosul, NAFTA, etc). Duas foram criadas para regular e impedir a guerra (Sociedade das Nações e ONU).

Sem surpresa a comunidade internacional tem intervido de forma errática, titubeante e ineficaz na resolução dos problemas mundiais que não sejam comerciais ou guerreiros. A experiência é pouca e a orientação das instituições mundiais é outra, a política internacional não está estruturada nem direccionada para os problemas populacionais, de desenvolvimento, de justiça e do ambiente.

O comércio é uma talvez o grande fundamento das relações internacionais pacíficas e mutuamente vantajosas. Não é suficiente resposta para os problemas actuais.

iniciativa parlamentar


Pergunto-me sobre o exercício da função fiscalizadora do Estado pelo Parlamento. Face às recente alegações de graves manipulações da verdade publicada, ou publicável, entristece-me o silêncio e inacção do parlamento.

A prática quotididana da república portuguesa falha no pilar mais fundamental da democracia: a contestabilidade e verificabilidade de todos os poderes.

2004-08-07

Mote: SILÊNCIO


Cerberus: O chefe dorme...
Coro (suspirando): Oxalá não acorde tão cedo...

2004-08-05

Liberalização dos produtos agrícolas



É cheio de dúvidas que leio a carta de intenções do organização mundial do comércio sobre a liberalização do comércio de produtos agrícolas e seus benefícios para os países em vias de desenvolvimento.

A história é repleta de exemplos de ausência de barreiras ao comércio de produtos agrícolas países menos desenvolvidos e países industrializados. Lembro-me dos períodos coloniais, ou de qualquer outra forma de dominação, em que a liberalização entre as colónias e as metrópoles foram realidades. O resultado foi sempre a monocultura em grandes áreas, acompanhada por exploração da mão-de-obra, destruição de ecossistemas e alheamento das populações das regiões com menor produtividade. As populações que dependem de estruturas produtivas deste tipo vivem ao sabor da turbulência dos mercados internacionais, sem o efeito moderador da diversificação produtiva.

A liberalização do comércio tem provocado não só especialização, mas também a pulverização geográfica da linha de produção. Nos produtos alimentares podemos esperar o mesmo. Com a crescente incorporação de tecnologia, marketing e de serviços nos produtos alimentares, maiores serão as oportunidades para deslocalizar para os países em desenvolvimento as tarefas com menor margem, centralizando a criação de valor nos países desenvolvidos. O preço final do produto alimentar incorpora o preço da semente, da máquina, do petróleo, da investigação, da luta contra as pragas, do transporte, da publicidade, da embalagem, da transformação, da margem da distribuição. Nele a percentagem para a mão-de-obra do trabalhador agrícola é ridícula. É pouco o valor que permanece no país produtor.

E mesmo pequenos, os ganhos da abertura ao comércio não são igualmente distribuídos pelas populações, havendo até sectores dos países em desenvolvimento, à partida globalmente beneficiados, que perderão. Em países com os direitos de propriedade estão pouco ou nada constituídos, com estruturas de poder político frágeis e nada democráticas, a probabilidade da rapina e do saque é elevada. Iremos assistir à expulsão de populações inteiras, à corrupção, ao desrespeito pelos direitos constituídos pelo uso e tradição... A história é rica em exemplos semelhantes.

De qualquer modo, fico feliz como o nosso vizinho JPT no Ma-Schamba, o pouco que ganharão é sempre melhor perspectiva que este nada que sobra, agora, nas mãos dos africanos.